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A Cidade sem Espaço (1961)

 

É uma impressionante revelacão  de inquieta verdade humana este livro com que Alice Sampaio se apresenta no difuso panorama da nossa  literatura contemporânea. 

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Manuel Bandeira

 

L’essentiel, par ces temps de misère morale, c’est de créer de l’enthousiasme. Combien de personnes ont lu Homère? Cependant tout le monde en parle. On a créé ainsi la superstition homérique. Une superstition dans ce sens provoque une excitation précieuse. C’est d’enthousiasme que nous avons le plus besoin, nous et les jeunes.

 

Pablo Picasso

 

A casa de Isabel, num bairro afastado do centro da cidade, com o seu jardim, onde cresciam, ao deus-dará, algumas roseiras, um espinheiro, espesso matagal e uma figueira que dava frutos pretos, era velha e grande .

 

Construída no estilo vulgar da sua época, com o desprezo e abandono dos anos tornou-se notável, de começo sombria, depois risonha, como convém a um casarão que se preze habitado por terrível garotada. Saía do alinhamento citadino, recuada, a esconder as manchas esverdeadas e os pedaços de pano branco pregados nas janelas, em substituição de vidros partidos, tal solteirona envergonhada das suas rugas em presença de rapazes casadoiros. Verdadeiramente, a casa de Isabel, no meio da arquitetura moderna e banal que avançava por todos os lados â sua volta, assemelhava-se mais a uma personagem importante, de casaca rota e botas cambadas, numa recepção de respeitáveis e gordos burgueses.

 

 

O Aquário (1963)

 

Sobre o tema da angústia de viver, Alice Sampaio conseguiu escrever um livro profundamente original, graças a um deslocamento poderoso através do tempo e do espaço, que lhe permite despojar o problema do destino humano dos seus aspetos secundários ou contingentes, para chegar logo ao centro do assunto.  (...)

Com uma arte sugestiva, coloridíssima, a raiar pelo visionário, a autora constrói um mundo de paisagens e seres inconcebíveis, cheio de cidades minerais e vidas subterrâneas, palpitantes, evocado numa espécie de poema do estranho, profundamente perturbante.

 

Sans le Mouvement, tout serait une seule et même chose.

 

Balzac

 

A lente, monstruoso olho avermelhado, deixava filtrar um ténue raio de luz, luz que emergindo do foco se ia rasgar em milhares de dedos enroscados nos cabelos claros-sombrios da rapariga. Esta, adormecida, rosto atento e concentrado, o corpo em solitário abandono, a sugerirem a vertigem dum sono inquieto – era uma delicada e extravagante “manchette".

O quadro desencadeava-se em contido turbilhão. Voltando-se na cama, Maga estendeu uma perna e teve um lento e suave sorriso. Nesse instante entrou no compartimento um ser quase-monstro-quase-humano, dum verde quitinoso, rebrilhando como metal polido, a cabeça um esferoide onde aparecem e desaparecem fendas luminosas, todo um anárquico conjunto de traços e orifícios abrindo-se e fechando-se para o mundo envolvente: um rasgar que mais parece uma mirada e que logo é um sistema de perpendiculares, um sulco luminoso a semelhar pálido riso e que imediatamente se apaga, fina e ardente poalha em

volta dos traços - talvez concisa e matemática pergunta-resposta...

 

 

O Dom de Estar Vivo (1967)

 

“(…) não é pequena satisfação encontrar alguém que respira com uma naturalidade que chega a parecer insólita. Essa é a grande qualidade que sobressai em O Dom de Estar Vivo: a fluência, a espontaneidade, a invenção vocabular fácil. 
(…) o saldo final é francamente positivo. Diríamos que Alice Sampaio é um romancista da indignação e, como todos bem sabemos, a indignação é um sentimento vivo. Só isto bastaria para lhe darmos o nosso aplauso. É também uma escritora que não vira a cara a certos problemas que têm muito que ver com a sua condição de mulher neste momento da História, neste ponto crucial em que se está preparando uma diferente confrontação entre os dois sexos.”


Recensão crítica de José Saramago, Seara Nova, N.º 1468, fevereiro de 1968

Capítulo I

Sorrisos de Verão

 

Where is the summer, the unimaginable Zero Summer?

 

T. S. Eliot


Guardava da aldeia a nebulosa imagem de um feixe de paralelas, estranguladas a meio, tensas como cordas de uma guitarra. Confrontando agora imagem-objecto concluía que não: a aldeia tinha sim a forma de um corpo humano, deitado de costas, as mãos debaixo da cabeça a servir de travesseiro, pernas levantadas: assexuado, monstruoso (quatro patas), semiadormecido.  Atardado.

 

Àquela hora da tarde aborrecia-me quase agradavelmente. Considerava o povoado do alto do casario da tia Lau (este ocupando grande parte de uma das patas centrais), construção rectangular pesadona e feia sem outro arrebique além do telhado preto, pontudo, à laia de pagode chinês e que apesar dessa sólida desgraciosidade, ou por causa dela, se impunha de longe, sobressaía com vantagem do palacete dos Azevedos em estilo-novo-rico-chegado-das-Américas e da vivenda das Senhoras Sampaias, toda de granito e arquitetura monástica talhada em largos blocos escurecidos pelo tempo, onde alastravam musgos e líquenes e nos interstícios cresciam talófitas e outras variedades vegetais: pintura passado-romântica que melhor camuflava a abundância e sobriedade transmitidas de geração em geração. Do seu mirante podia abarcar a aldeia com o seu remate indispensável, a Toda-Poderosa-Igreja, Casa-do-Senhor Padre, passais, cemitério e adro.

 

 

 

D. Leonor, Rainha Maravilhosamente (1968)

 

Meus Senhores,

(por uma vez) tenho tanta coisa a dizer que estou com medo de ficar gago, e de semelhantes gagos está o Inferno cheio. Evidentemente, o Inferno seria a última coisa a assustar a maravilhosa D. Leonor de Alice Sampaio e a Alice Sampaio de D. Leonor.  (...)  Quem souber ler-ver o que aqui chamo "teatro", terá com D. Leonor, Rainha Maravilhosamente, a vertigem, coisa a meu ver muito boa, logo muito rara, e não só dentro da dramaturgia portuguesa.

Jorge Listopad in Prefácio

 

...dos quais dizia que nunca estaria vingada até que tivesse um tonel cheio das línguas deles.

 

Bem sabeis como aquela mulher é sages em muito mal e sabedora de grandes artes.

 

Fernão Lopes

Primeiro Acto

Cena I

 

Palácio da Idade Média. Noite. Mulheres vestidas de negro sentadas ao redor de uma fogueira. Movem as mãos descarnadas à transparência da chama:

 

Mulher : Malvados.

Mulher : Fidalgos.

Mulher : Burgueses.

Mulher : Desvairadas gentes vindas dos quatro cantos do Mundo. O Tejo a maior barcaria. Barcaria a entrar, barcaria a sair do Tejo. Ó, altos mares!

Mulher : Ó, amásias de fidalgaria. Ó, alma minha.

Mulher : Amásias de burguesia. Ih, o que aí vai ! Biscainhos, prazentins, lombardos, catalães, milaneses. O diabo! Negócios por grosso, negócios por miúdo, carregações de vinho e sal, carregações, mundos e fundos.

 

 

A Rua da Ronda  (1969)

(Tarde Branca do Mês de Janeiro)


Uma aldeia da Beira Alta – de antes da emigração – mergulhada na fome e no frio. A “rua da ronda” será como uma espécie de via-sacra do povo, a rua da procissão do Senhor da Agonia que descreve a curva fechada de um desespero sem limites. Como ultrapassá-lo? Como romper o círculo? “A Rua da Ronda” é a primeira peça de uma trilogia “Para um Teatro dos pobres”: a aldeia na fome e no frio, a aldeia durante a emigração (rompeu-se a cadeia?), e a aldeia depois, muito depois…

 

yo soy Merlín, aquel que las historias dicen que tuve por mi padre al diablo....

 

Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha


Quadro I

 

Na brancura desértica de um nevão, uma casa de pedra e a mulher como uma sombra de nevoeiro.

 

Eufrásia :

Velhacos. Bácoros. Bacocos. A chamarem-me a mim, a mim, bruxa. De feitiços. A mim que os tenho curado de maleitas, maus olhados. Ah dianhos. Bocas abertas. Ui rai's os parta. Tempos hão-de vir malvados humanais criaturas e vereis ah vereis todos de abalada. Os novos pois. Os viçosos. Aahhhh. Pra guerras. Prá estranja. Brasis e mais brasis. Dinheirama a rodos. Oivi-o em sonhos. E mais coisas e aloisas. Dianhos. Olha a falta. Fomes. Sequidão de velhos relhos. Dianhos. Vão-se vão que rufões voltarão. Como oitros. Os que voltarem. Corja. SSSSSSS. Rai de frio. Acabo o conto tonto. Que quem viver verá. E contará. SSSSSSSSS. Ijasus. Fora canalha. Fora. Fora. SSSSSSSSSSS. Olha já lá tardava. Mirai-me aquela abutarda. O Miguel Almocreve. Vou-me. Vou-me. Há-de querer chá. Lumbago queixa-se. E eu a saber. Sempre com o siso na panela do caldo. Pois espera que já o comes. Dó de mim. Ai dó de mim. Ai não que cruzes e rezas dão na fraqueza. Mê caldinho. Mê rico caldinho de minha alma. Nos escusamos Ufrásia. SSSSSSSS.

 

 

Penélope (1977)

 

Primeiro volume de um romance que ficou inacabado e deveria ter doze volumes, réplica ambiciosa a Joyce e Proust, mas representativo do que há de mais profundo na obra de Alice Sampaio. Escrito numa linguagem difícil, talvez hermética, em que a narrativa não se desenrola de uma forma linear, necessita, quem sabe, de várias leituras.  A própria formatação do texto era então inovadora.

 

A arte mais interessante e criadora da nossa época não está aberta aos possuidores de uma cultura geral; exige um esforço específico; fala uma linguagem especializada. (...) Mas o fim da arte é quase sempre proporcionar prazer ainda que leve tempo às nossas sensibilidades aderir às formas de prazer que a arte oferece em determinados períodos.

 

Susan Sontag  (citada na contracapa)

A Infanta

Volume I 
 

memória ou a suspensão da corrente do tempo

 

da sabedoria oriental

 

Time present and time past are both perhaps present in time future

 

T. S. Eliot

jésus

que

ma

joie

demeure

como belíssima larva verde verde de irrealíssimo verde corpo em flor os cabelos louros de todos os tons de louro tal qual metais raros nesse universo transfiguração do espelho persistência da memória rasgada aqui e ali por passado presente e futuro - um futuro entoado a dó-ré-mi pianíssimo nos lábios here is belladona the lady of rocks

havia sombras por todo o quarto e ela tirou da caixinha a hóstia que devia engolir sorrindo irónica as pobres criaturas não mais sabiam alapar-se no seio de um deus enfastiado de todo o existente per omnia secula seculorum que fora verdadeiro substituinte de pílulas ou teria herr doctor outros exorcismos armas mortíferas contra fobias e desesperações fantasias que nem nomeadas o poder de acordar sonâmbulas por módica quantia exorbitantes quantias se comparadas com a dos simples confessionários ajudado o cura pelo sacristão pessoal outrora amestrado um simples espinho da coroa de jesus dava para sarar mil maleitas maria santíssima por uma avé-maria recomendava qualquer degredado a seu divino

filho

durma senhora

dizeis bem

 
 
 

Livro I

Livro II

 
 
 
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